Princípio de delicadeza
#14 “o amor é a alegria acompanhada de uma causa exterior”
“- Gabriela, o que é Casa?
- Eu-Longe”
(Caderno de Sonho)
I No princípio era a mudez murmúrio, mmmmm do tempo caminho entre sonho e som. No princípio era o soluço de quando meu rosto ainda não existia e as pancadas na porta do quarto encontravam a pureza de eco sem memória. (distante o som do maraká território inacessível kophu araga o som do maraká chama do corpo entoada em língua adormecida) II No princípio era o dialeto da noite, o desvio entre o rio e o deserto. A pergunta sobre os longos meses no quarto escuro, o corpo amarrado à cama empapada de suor e soluços, os cabelos embaraçados acorrentes de um leito poluído, as manchas empedrecidas nos côncavos do rosto, as unhas em queda-livre pegas em emboscada pelo ar. A pergunta sobre o reinado do desejo de morrer. O medo sem objeto. III No princípio era o punho ao avesso, a obscena delicadeza da carta. A força que só é possível diante de algo tão frágil quanto a vida. Na imagem-beira, a mulher tenta abrir a boca de uma gata. No Caderno, O vento começa a soprar mais forte E o ouvido se estende à margem da pele Escuta com os poros (Ana repito como quem busca alguma coisa Ana ouço Eco Eco não repetia a composição inteira que era soprada ao vento Só a última parte Então se Eu grita Ana O que ecoa é) o traço. IV Nunca consegui escrever Sobre batroki, Quando a lua deixou de vigiar a noite E arrancaram a delicadeza do mundo. Nunca consegui escrever Sobre o Rasgo Guardião da música de rasgos anteriores Buraco num corpo caracol queimado Mensageiro do estrondo No meio da tarde de uma sexta-feira da Paixão. Poderia ter começado assim “No Princípio, Grito e Sonho” Mas li com R.B. A figura do “Morto no colo da criança” E foi à delicadeza, que dediquei a escrita mesmo antes do meu corpo saber que a poderia suportar. V Na carta da Força o chapéu infinito cria o Nome entre o pé e o chão. Na Gruta da Mãe Tamain O rasgo-anterior Cria afluentes no deserto, Para fazer chegar o Texto. Primeiro princípio de delicadeza: Sei que se você estivesse aqui, se aproximaria. No momento em que se ensaia o movimento da roda quando todos os corpos estão em um só ritmo indo lá e cá frente e trás Eh eh ê a ê ôhhh Eh eh ê a ê ôhhh ê a ê a Êarroá seus sentidos todos estariam aguçados atentos com o Amor daquilo que não foi corrompido pela língua. Você, antes de mim, soube escutar o som do maraká – anunciou as marcas ancestrais no corpo; anunciou o que, no meu Nome, traduziram para uma língua dormente. O que sei com o Texto é uma migalha do que você já sabia. Segundo princípio de delicadeza: A ponta do lápis já não suporta o que quero dizer quebro as pontas do lápis como se possuísse um estoque infinito, mas tenho medo do momento em que todos acabarão e terei que procurar outros métodos para escrever. Talvez me machuque na busca. Já ouviu aquela história de um homem preso por mais de quarenta anos em um cubículo? Ele começou a arrancar os dentes para escrever com o próprio sangue e quando saiu da prisão estava sem os dentes e as paredes em volta cheias de rascunhos ininteligíveis e ninguém entendia o que ele falava e o único registro que ficou no momento da saída foi uma fotografia com um sorriso sem dentes. Não dava para saber se ele estava sorrindo ou fazendo uma careta para não encegueirar pela luz do sol. Talvez as duas coisas. Uma boca sem dentes sorrindo para não encegueirar pela luz do sol uma maneira de ensaiar a escrita. Terceiro princípio de delicadeza: Quando uma criança nasce, a glândula lacrimal não está formada. É preciso lavar os olhinhos e estimular para que ela termine seu trabalho. Dentro da placenta ela não precisa derramar lágrimas por isso o primeiro grito primeiro choro é sêcco sem lágrimas e ela chora a sêcco até ter um canal por onde escorrer. Esses são Outros momentos para onde retornar antes do espelho: o grito e sua sêccura. Os médicos recomendam que se coloque leite materno em cima dos olhos. Leite materno em cima dos olhos cria um véu espesso por onde a criança pode ver o mundo Outra maneira de ensaiar a escrita.
(Pausa)
Escrevi esse texto em 2024, com os restos do primeiro ciclo junino passado em São Luís. Um período em que a única coisa que fazia era anotar obsessivamente as imagens de tudo que tinha visto tentando entender em que aquilo abria para mim a investigação de um livro em andamento. Lembrei dele hoje, domingo 28 de junho, enquanto olho a chuva da véspera de São Pedro e penso em Llansol:
Chove torrencialmente no texto. Chove torrencialmente, e não há nada que substitua as vozes da natureza. Quem sabe para o que nasce ______
nasce.
ainda assim
esta natureza de que falo não pode ser destruída,
“o amor é a alegria acompanhada de uma causa exterior”.


